• Rose Campos

Seu problema é sono?

Novos tempos, mudança de rotina, um acúmulo de preocupações. Neste contexto, é natural que tudo isso resulte em noites mal dormidas. E, caso elas se repitam muitas vezes, o prejuízo para o bem-estar geral tende a aparecer. Felizmente, há saídas. Confira a entrevista a seguir




Problemas do sono não são apenas frequentes, mas podem se manifestar de formas muito variadas. Em geral, só prestamos atenção quando a questão é pessoal. Conosco ou com quem dividimos o quarto. Mas nem sempre a resolução é tão rápida. Para falar sobre os distúrbios do sono mais incidentes na população, seus sintomas e os tratamentos disponíveis, fomos ouvir um especialista no assunto, o Dr. Gabriel Pires, que integra o Instituto do Sono, em São Paulo, como pesquisador, e é também professor nesta área. Acompanhe esta entrevista feita com exclusividade para Saúde Sempre.


Se preferir, ouça o áudio da entrevista em podcast, na sua plataforma preferida. Os links estão no fim do texto.


Saúde Sempre - Quais os distúrbios do sono encontrados com maior frequência?

Dr. Gabriel Pires – Segundo a classificação da Sociedade Americana de Medicina do Sono, existem mais de 80 distúrbios do sono. Mas os mais frequentes são o que a gente mais ouve falar pelas pessoas, mesmo fora de qualquer centro médico. A apneia está comumente relacionada com o ronco. Apneia é aquela situação em que a gente tem pausas na respiração ao longo da noite. Essas pausas podem ser notadas pelo ronco, por engasgos, mas às vezes elas passam despercebidas. E a pessoa vai parando de respirar várias vezes ao longo da noite. Pelo menos cinco paradas por hora já são um indicativo da apneia obstrutiva do sono. Outro distúrbio importante é a insônia, que é caracterizada pela dificuldade de conseguir dormir, ou de manter o sono. E depois dessas duas existem várias outras doenças que variam um pouco na frequência, como o bruxismo do sono, que é o hábito de ranger ou apertar muito os dentes durante à noite. Existem os distúrbios de movimento durante o sono, pessoas que chutam as pernas ou fazem movimentos com os braços ao longo da noite. Existem as doenças comportamentais durante o sono, e a mais famosa delas é o sonambulismo, quando a pessoa sai caminhando durante a noite. Então, são vários distúrbios, mas os mais frequentes e mais importantes na nossa população são a insônia e a apneia obstrutiva do sono.

Saúde Sempre Existe uma estimativa da incidência dessas doenças (ou distúrbios) na nossa população?

Dr. Gabriel Pires – A gente sabe bem qual a incidência dessas doenças na população da cidade de São Paulo porque o Instituto do Sono tem feito estudos epidemiológicos desde a década de 80. São estudos muito bem feitos, referência no mundo inteiro para epidemiologia do sono e que recebem o nome de EP Sono. A gente sempre sorteia mil pessoas na cidade de São Paulo e traz essas pessoas para o Laboratório do Sono para poder avaliá-las do modo mais detalhado possível. Com base nisso, a gente entende quais são as características que fazem com que a pessoa tenha o distúrbio do sono. Por exemplo, a gente sabe muito bem que a apneia do sono é mais comum em pessoas idosas, em homens, mas principalmente em pessoas com sobrepeso ou obesidade. A obesidade é o principal fator de risco para a apneia. Já na insônia muda um pouco o perfil. Em geral, as mulheres são um pouco mais suscetíveis do que homens. Mas qualquer pessoa, mesmo homens, pode ter um nível bem grave de insônia quando passa por algum período de stress ou sobrecarga de trabalho, por exemplo. E é um quadro muito associado à ansiedade. Então, focando nesses dois distúrbios, a gente entende muito bem qual é o perfil das pessoas que têm distúrbios de sono. Existe outra condição, que não é um distúrbio de sono, mas é uma queixa muito frequente: a privação do sono. É a situação em que, seja por doença ou por uma condição social, eu não consigo dormir na quantidade necessária ou o tanto que eu gostaria. Digamos que eu seja uma pessoa que tem dois empregos e que moro afastado do centro da cidade. Vou chegar em casa às 11h da noite e acordar às 4h da manhã. Eu tenho algum distúrbio de sono? Não necessariamente, mas sou privado de sono. Essa privação traz muitas consequências negativas pra saúde. E pode ser uma queixa ainda mais prevalente que os distúrbios de sono.


Hoje o principal tratamento para insônia é uma terapia chamada Terapia Cognitivo Comportamental, em que na interação com o psicólogo se procura entender quais são as causas do distúrbio

Saúde Sempre Quais são os principais recursos para tratar esses distúrbios?

Dr. Gabriel Pires – Os recursos variam muito e vão depender de cada caso. Mas existem algumas estratégias principais. Nós podemos tratar com medidas comportamentais, com medicação e, em alguns casos, com cirurgia. O que podem ser as medidas comportamentais? Vamos supor que eu tenha dois empregos e estou chegando em casa muito tarde e tendo que acordar muito cedo. Não existe remédio que vá tratar a situação em que me inserido na sociedade. Preciso mudar a situação: deixar um dos empregos, o lugar de moradia ou minha condição social, enfim, isso é comportamental. O tratamento comportamental também pode ser utilizado nos casos de insônia. Em vez de dar um medicamento, eu devo entender quais são os comportamentos e as crenças da pessoa que fazem com que ela durma mal, ou não consiga iniciar o sono. A insônia, em geral, tem um fundo comportamental. Então, melhor do que tratar com medicamento, é entender o contexto do paciente, para tratar as causas. Hoje o principal tratamento para insônia é uma terapia chamada Terapia Cognitivo Comportamental, em que na interação com o psicólogo se procura entender quais são as causas do distúrbio e se busca exercer comportamentos que sejam favoráveis a um sono de qualidade. Sempre primando por uma coisa que se chama higiene do sono, que são bons hábitos do sono. Outro tratamento comportamental, mas para apneia, seria a perda de peso. Ou o hábito de dormir de lado, que é mais momentâneo, não cura a apneia, mas faz com que a pessoa tenha menos paradas durante a noite. Remédios para distúrbios do sono também são importantes e podem ser usados. Não vem ao caso aqui a gente listar quais são, mas eles podem ser muito bem indicados para alguns casos. Só que essas medicações, chamadas hipnóticas ou indutoras do sono, não deveriam ser usadas por muito tempo, por mais de três meses. Porque a partir desse período sujeitam o paciente a muitos efeitos colaterais e deixam de funcionar de modo efetivo. O ideal, nessa janela de três meses, é tentar descobrir qual a causa comportamental do distúrbio para saber lidar com ela. Os medicamentos não deveriam ser usados de forma crônica. Na prática isso não acontece. Tem pessoas que tomam seu remédio para dormir durante a vida inteira. Aqui também cabe mencionar a melatonina, um dos grandes hormônios indutores de sono na nossa fisiologia. Pensando nisso, algumas pessoas começaram a tomar melatonina, mas parece que isso não funciona. A não ser em casos específicos, como o jet lag (quando a gente viaja para um país com horário diferente do nosso), e a melatonina pode ajudar a ajustar nosso ritmo. Mas como tratamento de insônia ela não é recomendada. Por fim, o último tipo de tratamento, principalmente para apneia, são as cirurgias. Se eu tenho apneia causada por alguma má-formação na face, por exemplo, o queixo mais retraído, algo chamado de retrognatia, a cirurgia pode corrigir. Há ainda outro tipo de tratamento específico para apneia, que são os aparelhos. São usados aparelhos chamados de cpap. É uma espécie de compressor de ar ligado a uma máscara, que é presa ao rosto e há uma pressão de ar que mantém as vias aéreas sempre abertas. Evita a interrupção na respiração e impede que ela vibre, então não tem o ronco. Além disso, existem umas placas, tanto para bruxismo quanto para apneia, que são intraorais e funcionam bem. Resumindo, existem quatro tipos de tratamento para o sono: comportamental, farmacológico, cirúrgico e por equipamentos.

Saúde Sempre Quais são os riscos de não tratar esse tipo de distúrbio?

Dr. Gabriel Pires – Todos esses problemas, se não tratados, podem piorar e levar a consequências importantes. Por exemplo, a insônia, se não tratada, vai levar à privação de sono por muito tempo e pode resultar em quadros bem complicados de saúde mental, com aumento de ansiedade, aumento de depressão. Insônia e privação de sono, quando levadas para um contexto social, vão dificultar o ajuste à sociedade e ao ambiente de trabalho, podendo acarretar acidentes de trabalho, acidentes automobilísticos, diminuir a capacidade cognitiva, levar a problemas de memória, de humor. Também pode ocasionar problemas orgânicos, mas estes são mais vistos na apneia, quando há um risco muito grande de doenças cardiovasculares, principalmente hipertensão, mas também enfarto agudo do miocárdio e AVCs. A apneia não tratada é muito perigosa para o sistema cardiovascular. Sem falar que aumentam as chances de desenvolver diabetes, torna as pessoas mais sujeitas a acidentes de carro. Por que isso acontece? Porque quanto mais apneica a pessoa é, mais cansada fica ao longo do dia, por não conseguir dormir direito à noite. E, quanto mais cansada, mais sujeita a acidentes. Então, todo distúrbio do sono deve ser tratado. Não tratar leva a consequências sociais e físicas, de saúde.

Saúde Sempre Quando um paciente procura o Instituto, em média, quanto tempo já sofria com o distúrbio?

Dr. Gabriel Pires – Varia bastante. Por exemplo, muitas pessoas têm apneia e não sabem. Se chegam com esta queixa, não é pelo próprio paciente e sim por seus familiares. Imagine um homem com cerca de 30 anos. Ele não sabia que tinha apneia até que tenha casado. Ele sozinho não consegue notar que tem essa queixa. Assim, demora um pouco para que a pessoa acabe nos procurando. A insônia pode fazer com que a busca por tratamento seja mais rápida. O que faz a pessoa procurar tratamento é a percepção de um sono de má qualidade e, principalmente, a sonolência. Se fico muito sonolento durante o dia, cansado, fatigado, não consigo prestar atenção às minhas atividades, podem ser indícios de que não estou dormindo bem. Aí começo a pensar num problema de sono e a buscar tratamento.


A insônia é um distúrbio muito relacionado com a ansiedade. E se tornar mais ansioso por causa da pandemia pode aumentar as chances de ter insônia

Saúde Sempre É possível dizer que houve aumento da incidência de problemas relacionados ao sono durante a quarentena?

Dr. Gabriel Pires – Não existem muitos estudos a este respeito ainda. Os estudos do sono demoram um pouco. Mas muitos estudos estão em condução no mundo todo, inclusive o Instituto do Sono está fazendo um. Não temos dados fechados ainda. Mas o que se imagina? A insônia é um distúrbio muito relacionado com a ansiedade. E se tornar mais ansioso por causa da pandemia pode aumentar as chances de ter insônia. Assim, pessoas mais aflitas por esse período de inseguranças e com as notícias relacionadas à covid-19 devem ficar atentas em relação a isso. Devem evitar ficar se informando ou usando o celular próximo ao horário de dormir. E procurem dicas (temos isso na internet) sobre higiene do sono, buscando o sono mais saudável possível. Outro distúrbio de ritmo que pode acontecer é o chamado atraso de fase. Trabalhando em casa, as pessoas tendem a dormir cada vez mais tarde e acordar mais tarde. Tem gente quase trocando o dia com a noite. Mas como estamos próximos de uma reabertura, de deixar o isolamento social, é preciso nos preparar para quando isso acontecer. Porque o retorno à rotina vai exigir acordar mais cedo, o que fica mais difícil se isso for feito de modo abrupto. Fazer isso aos poucos, uma semana antes, já ajuda a voltar ao ritmo normal.

Saúde Sempre O senhor tem alguma dica específica para este período?

Dr. Gabriel Pires – Sim, existem algumas dicas. Como manter os mesmos horários de trabalho, mesmo trabalhando em casa. Especialmente quem é mais suscetível à insônia. É interessante ter um local específico para o trabalho, não no quarto, não na cama, mas ter um cantinho de trabalho e se preparar para isso como se estivesse indo para o trabalho mesmo. Tome um banho, troque de roupa e aí sim vá trabalhar. Só lembrando que tudo isso são apenas estimativas do que a pandemia pode causar. Existem suspeitas de que distúrbios do sono podem predispor a um caso mais grave de covid-19. São dois casos principais. Um é a privação do sono. E sabemos que uma das coisas importantes do sono é a imunidade. É durante o sono que a gente regenera todo nosso sistema imunológico. Pessoas que não dormem bem acabam tendo imunidade mais falha, mais fraca, mais sujeita a erros. Então, pessoas privadas de sono estão mais sujeitas a serem infectadas por covid-19. Além disso, o que a gente nota é que o perfil de pessoas que têm apneia é justamente o perfil de pessoas que estão mais sujeitas a casos graves de covid-19. São aquelas mais idosas e as acima do peso.

Saúde Sempre E, na quarentena, aumentou de fato o relato de casos de sonhos ruins ou mais agitados?

Dr. Gabriel Pires – Isso pode estar relacionado à ansiedade. Quanto mais aflita e ansiosa com a situação da pandemia, maior a chance de ter pesadelos. Quanto maiores as incertezas que a covid-19 nos traz, maiores as chances de termos quadro de insônia e de pesadelos também. O pesadelo acontece porque reflete o comportamento de uma pessoa. Se a pessoa se abala pela situação que estamos vivendo, é natural que os pesadelos possam acontecer.


Dr. Gabriel Pires é pesquisador do Instituto do Sono e professor da Santa Casa de São Paulo, ambos na capital paulista. Instituto do Sono: https://institutodosono.com

















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