• Rose Campos

Como usar o isolamento social a seu favor

Atualizado: Jun 3

A psicoterapeuta Maria Lucia Teixeira da Silva explica porque o período de confinamento pode se tornar angustiante e dá dicas para aproveitar ao máximo esse período de contato íntimo consigo mesmo (e com o outro), tornando-o enriquecedor



Saúde Sempre - A necessidade de isolamento social, proporcionada pelo novo corona vírus, fez com que milhões de pessoas, no Brasil e no mundo, reduzissem sua mobilidade, permanecendo a maior parte do tempo em casa, sozinhas ou em família. Em termos do impacto psicológico, o que esse isolamento repentino e forçado pode acarretar à saúde?

Maria Lúcia Teixeira da Silva - Estamos tão identificados com nossa rotina, tão imersos nas demandas cotidianas que traduzimos como segurança a sensação de controle que imaginamos ter sobre nossas vidas. Uma interrupção inesperada, como a que ocorreu recentemente devido à pandemia do covid-19, na maioria das vezes , pode provocar reações como ansiedade e medo. Quanto mais apegados à identidade profissional e social, maior o sentimento de ameaça. Estar impedido de prosseguir com a vida considerada normal, em decorrência do isolamento, dispara alguns alarmes que podem ser vividos como stress, angústia e até depressão, dependendo da sensibilidade e maturidade de cada um para lidar com esse impedimento.

Saúde SemprePor outro lado, deve haver aspectos positivos também (além de limitar ou evitar a propagação do vírus). Quais seriam e como estimulá-los?

Maria Lúcia - O tempo tem sido visto como um valor precioso na nossa sociedade. São cada vez mais apreciados aspectos como ter tempo, saber gerir o próprio tempo ou conseguir aproveitá-lo melhor. E isso é para para poucos. Paradoxalmente, quando somos forçados a lidar com o próprio tempo, muitas vezes ficamos desorientados, principalmente aqueles mais acostumados a responder à demanda de outros ou aqueles que não se sentem confortáveis com a liberdade que representa ter tempo para si! A meu ver, este será um ganho inestimável: recuperar a posse do próprio tempo, resgatar seu ritmo natural do fazer, saber priorizar tanto as tarefas como o descanso. E, por fim, ter tempo criativo à disposição. Uma sugestão para os que estão se sentindo angustiados: se puderem, coloquem- se em férias por um período, até para se desintoxicar do ritmo de pressão e exigência do "tenho que fazer alguma coisa". Depois do detox, aos poucos, lembre-se das coisas que sempre quis fazer e nunca teve tempo: dançar, fotografar, desenhar, ler livros não técnicos de sua área, ficar de pernas para o ar olhando o teto, o que for... Cuide para não pensar muito em quando tudo isso vai acabar. E lembre-se que podemos nos permitir trocar o tempo da eficiência pelo tempo da experiência. É possível criar uma agenda pessoal, incluindo cuidados para o corpo, por exemplo, fazendo exercícios, alimentando-se bem; também é positivo acrescentar nesta agenda os cuidados com a mente, para organizar e prospectar uma vida mais alinhada com quem você é realmente; e acrescentar também os cuidados com a alma, com ações simples como ouvir música, aprender ou praticar a meditação, e buscar se sensibilizar com os próprios desejos. Além de fazer a lista, é preciso não se esquecer de utilizá-la (risos).

"A meu ver, será um ganhos inestimável recuperar a posse do próprio tempo, resgatar seu ritmo natural do fazer, saber priorizar tanto as tarefas como o descanso"

Saúde Sempre - O convívio forçado e restrito a poucas pessoas da família também pode resultar em discussões ou atritos. O que podemos fazer para suavizar os conflitos e proporcionar maior empatia e aprendizado a partir dessa convivência?

Maria Lúcia - Quando temos de compartilhar a quarentena com mais pessoas, é muito importante considerar o tempo de ficar sozinho e o tempo de conviver. Os conflitos surgem quando nos sentimos ameaçados por sermos invadidos e privados de respeito. São sentimentos que estão amplificados no contexto da pandemia. Por isso, crie um ambiente para se sentir acolhido e respeitado, cuide de respeitar seus limites e seu tempo. Então, para a coisa funcionar, é preciso dividir o tempo. Deve haver um período para se dedicar às suas práticas e tarefas profissionais, por exemplo, e o tempo voltado a criar momentos de descontração, como jogos de tabuleiro, brincadeiras com as crianças ou mesmo curtir uma conversa “de bar” na própria casa. Uma sugestão é criar um horário em que todos possam contribuir com os cuidados da casa, para não sobrecarregar ninguém. Além disso, não se esqueça de abrir um espaço para ficar sozinho(a), fazendo aquilo que mais gosta, é o seu espaço pessoal, como foi falado anteriormente.

Saúde Sempre - O Papa Francisco parece ter sido uma das primeiras figuras públicas a tocar no assunto da violência doméstica, que pode ser potencializada em tempos de pandemia e isolamento social. E algumas estatísticas, em várias partes do mundo, estão confirmando isso. A seu ver temos como prevenir esse mal no atual contexto social?

Maria Lúcia - As relações tóxicas tendem a se agravar com o estado de convívio contínuo e restrição de liberdade. A violência é a linguagem do desespero, da falta de repertório para se falar de sentimentos, desejos e frustrações. E vemos que a violência masculina contra mulheres é, muitas vezes, estimulada na cultura patriarcal e reforçada pelo machismo, que impõem à força o que não consegue obter por meio do diálogo. Esse tema é muito complexo, pois a disfuncionalidade do relacionamento, em geral, é desenvolvida pelas duas pessoas envolvidas, associando-se aos pontos de fragilidade de ambas. Assumir a existência de um problema no relacionamento é um primeiro passo, saber que a prática da violência funciona como uma adição (vício) e que, portanto, deve ser tratada pode ser um caminho para definir limites claros e ajuda mútua. A necessidade de buscar ajuda externa, além disso, quase sempre está presente. A vítima precisa encontrar coragem para ir buscar esse auxílio.



Autoconhecimento é uma oportunidade a ser usada


Saúde Sempre - Muito se tem falado sobre como aproveitar o maior tempo disponível em casa para a realização de atividades de lazer, descontração, aprendizados online e até para a reorganização do lar. No que diz respeito ao autoconhecimento, também há dicas para aproveitar melhor esse período?

Maria Lúcia - Estar com mais tempo para si mesmo passa a ser um convite forte para escutar com atenção nossos sentimentos e desenvolver sensibilidade para nossos sonhos, desejos e carências. Minha sugestão é que dedique algum tempo (não o tempo todo) a refletir sobre quem é você hoje. Então, pergunte-se: Como tenho me comprometido com meus planos? Como me sinto em relação à vida que estou vivendo hoje? Tenho investido no desenvolvimento dos meus potenciais? Não responda prontamente, dê uma chance para suas incertezas e escute com gentileza suas sensações. E pode incluir estas questões também: Quero voltar para minha vida de antes? Quais os motivos que tenho para continuar? Deixe um lápis e caderno para essa exploração e revisite um ou dois dias depois de ter respondido. Refaça, se sentir que ainda não respondeu a partir do coração. No fim, você se dará as próprias respostas. Escute-as!

Saúde Sempre - Às vezes, mais fácil do que olhar para as próprias dificuldades é enxergar o que se passa com quem está do nosso lado. Mas como falar sobre isso de forma eficiente, sem que pareça uma acusação?

Maria Lúcia - Pelo que entendi, você pergunta sobre como se relacionar sendo sensível ao outro, e não invadindo sentimentos e emoções que esse outro ainda não está sendo capaz de verbalizar. Pela minha experiência, vejo que muitas vezes projetamos as questões que parecem difíceis para nós e perdemos de vista o outro. Por isso minha sugestão é sermos cuidadosos em querer ajudar alguém. Sempre espere ser solicitado e seja sensível na escuta, para realmente compreender o que o outro quer dizer. Não caia na tentação de fazer suposições. Se sentir vontade de oferecer ajuda, pergunte se o outro quer receber e o que ele quer. Ofereça seu auxílio, mas sem perder de vista o pedido. Se quiser ajudar alguém a se perceber melhor, fale a partir de você, contando como você se percebe em determinadas situações, proporcionando referências e não diagnósticos. Isso poderá deixar a outra pessoa mais à vontade para falar das suas próprias necessidades.

Saúde Sempre - Pessoas com perfis diferentes de comportamento tendem a lidar também de modo diverso com a necessidade de isolamento social. É possível descrever os principais perfis e oferecer dicas que seriam mais eficientes para cada um lidar bem com esta nova situação?

Maria Lúcia - Em relação aos diferentes perfis, seria muito extenso detalhar facilidades e dificuldades para lidar com o isolamento pelos traços psicodinâmicos, mas pode ser bastante ilustrativo abordar sua proposta considerando dois grupos: pessoas extrovertidas, aquelas que são movidas por demandas sociais, se sentem confortáveis nesse cenário, e gostam de estar rodeadas de gente; enquanto os introvertidos, pessoas que se sentem bem na solidão e gostam de explorar sua vida interior, tendem a ter pouca habilidade social. Para o primeiro grupo, que deve se sentir mais sufocado e sozinho, aconselharia a se recolher e descobrir que a própria companhia pode ser muito excitante, permitir-se explorar esse universo interno reconhecendo seus próprios interesses e sensações, conectar-se e emocionar-se consigo mesmo. Para o segundo, dos introvertidos, que sentem menos a falta de circular no mundo, que tal explorar novos acessos, através de pontes seguras, como participante dos cursos online, e se experimentar em grupo, mesmo que remotamente? Pode ser um desafio, mas o resultado também pode ser surpreendente.

Essa situação, inédita para todos nós, pode ser muito rica se aproveitarmos para nos acolhermos no essencial de cada um e nos transformarmos para assumirmos maior participação na construção do mundo que queremos viver.



“Tenho um longo percurso de investigação sobre o humano contemporâneo,

No meu histórico profissional busquei duas linhas de visão do humano: a psicologia e a fisiologia médica.

Nesse momento, a partir da elaboração de duas teses acadêmicas e com 30 anos de prática em psicoterapia, proponho o estado de arte como caminho para o autoconhecimento.”

Maria Lúcia Teixeira da Silva é Psicoterapeuta, mestre e doutora em Fisiologia Médica pelo ICB-USP, autora do livro: Nesse Corpo Tem Gente (Ed. Casa do Psicólogo) e autora de vários artigos em revistas especializadas. Participou como palestrante convidada no Performing – The World 2012, no East Side Institute, de Nova York, e fundou, em 2012, a Triciclo – Corpo, Imagem e Linguagem – Inovação em Desenvolvimento Pessoal.

Contato: lu.teixeiradasilva1@ gmail.com


Foto: Arquivo pessoal


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